IHGI. Projeto John Luccok. 2016.

A Venda Paciência na Foz do Rio Macacu.
 
REMINISCÊNCIAS DE VIAGENS E PERMANÊNCIA NO BRASIl. [RIO DEJANEIRO E PROVÍNCIA DE SÃO PAULO] Compreendendo Notícias Históricas e Geográficas do Império e de Diversas Províncias. Daniel P. Kidder
Tradução de Moacir N. Vasconcelos.
Capítulo XII
EXCURSÃO AO MACACU – BARQUEIROS – VELEJANDO NA BAÍA – VENDA PACIÊNCIA – VILA NOVA – UMA NOITE NO RIO – MACACU – CONVENTO E SUAS TERRAS – O TABELIÃO – CIÊNCIA E MORAL – PASSAGEIROS – HINO NACIONAL –PORTO DAS CAIXAS – INSALUBRIDADE DO LUGAR – O BOTICÁRIO – DISTRIBUIÇÃO DE PUBLICAÇÕES – ALMOÇO –ENGENHO DO SAMPAIO – ENCALHE NA BAÍA – PORTOS –IGUAÇU – ILHAS.
“ Às três e meia passamos pela ilha do Paquetá e uma hora mais tarde chegávamos à desembocadura do rio Macacu. Conseguimos localizar a foz da corrente com alguma antecedência porque à margem esquerda existe uma construção grande e branca que de longe chama a atenção do viajante à medida que se vai aproximando.
O casarão está numa pequena elevação que parece constituir o único terreno firme nas circunvizinhanças. Na parte posterior o chão descamba para um vasto mangue que margeia o rio de ambos os lados, a perder de vista. Em frente à casa estava amarrada uma longa canoa preta. Um cachorro e uma galinha que passeavam pelo terreiro pareciam ser os únicos seres vivos nas adjacências, até que em uma curva do rio, em cujas águas já íamos navegando, conseguimos avistar um negro vagabundo, encostado ao batente da porta, o qual, ao perceber nossa aproximação, timidamente se retirou para o interior da casa.
Chegamos logo ao desembarcadouro e, enquanto os nossos barqueiros tomavam fôlego antes de iniciar a subida do rio, pusemo-nos a examinar o lugar onde tínhamos aportado. Um belo sepulcro ornamentado e cheio de ossos, dificilmente poderia ser mais ilusório, em sua aparência externa, que a grande casa branca que vínhamos contemplando desde longe. À distância, poder-se-ia tomá-la por um palácio; todavia, internamente não passava de miserável taberna de pinga, escura e suja, cheia de jarras e garrafas de cachaça e inteiramente abandonada. A única pessoa que ali se encontrava era o negro sonolento que, escondido atrás do balcão, apoiado sobre os cotovelos, resmungava respostas às perguntas que íamos fazendo.
O nome do “estabelecimento” era “ Venda Paciência”. A nossa paciência, porém, é que não deu para nos demorarmos em suas redondezas; às cinco horas partimos. As primeiras habitações que vimos foram dois mocambos, um à vista do outro, mas em margens diversas do rio. Os nossos barqueiros fiéis, mas, tímidos, iam relatando histórias horríveis dos bandidos que infestavam essas paragens ribeirinhas. Informaram-nos de que esses casebres pertenciam a malfeitores, mas que um deles havia sido fechado e seus ocupantes presos ou mortos por ordem do governo. “Era sempre necessário andar armado por aí, pois, sem armas é que ninguém ousava subir o Macacu, muito menos à noite.” Apesar de suas recomendações estávamos bastante satisfeitos, por que as nossas armas não eram materiais. O rio tinha cerca de meia milha de largura; suas águas eram barrentas e forte a correnteza. As margens pouco se projetavam acima da tona e mostravam-se inteiramente recobertas por uma espécie de capim gigante, interpolado de árvores e arbustos floridos. Flores cor de ouro, brancas e escarlates pendiam em grande profusão das barrancas. Ao cair da tarde chegamos a um desembarcadouro que serve a Vila Nova de São José, situada à margem sulina do rio. Próximo ao ponto em que tocamos, viam-se apenas duas casas. Uma delas era uma venda de tipo mais ou me nos igual à que havíamos visto na foz; a outra era ocupada por um espanhol recentemente entrado no país. [...] Continua...
Fonte: O BRASIL VISTO POR ESTRANGEIROS