Relato do naturalista Auguste de Saint-Hilaire sobre Porto da Estrela, Magé, em 26 de janeiro de 1819.

Porto Estrela - Aquarela de Thomas Ender - 1818

"Partira ao meio dia do Rio de Janeiro; cheguei às seis horas ao Porto da Estrella, onde já o rio tem muito pequena largura. Esta pequena povoação pertence à parochia de Inhomirim e não possue mais do que uma capella construída sobre e dedicada a Nossa Senhora. Desde que comecei a viajar o Brasil, lugar nenhum me apresentou tanto movimento como Porto da Estrela. Há difficuldade em nos encontrarmos uns aos outros no meio das bestas que partem ou chegam, dos fardos, dos almocreves, das mercadorias de todo o gênero que se accumulam nessa povoação. Lojas bem sortidas fornecem aos numerosos viajantes aquilo de que carecem. Aliás, não existe, em volta de Porto da Estrella, nenhuma habilitação digna de nota (1819); mas cultiva-se um pouco de café nos arredores. A primeira casa se apresenta é o rancho destinado a abrigar as caravanas; é uma construção bastante longa, dividida em espécies de células por paredes de barro, e na frente da qual o tecto prolongado forma uma vasta galeria cujos pilares são de tijolos (1819). Cada caravana se abriga numa das cellulas do rancho, ahi arruma a sua bagagem e faz a cozinha: nenhuma espécie de conforto, nem mesmo uma mesa, ou um banco, e, quando da minha passagem, via-se o céo através das divisões mal conservadas.”

Fonte: http://mirindiba-ipcca.blogspot.com.br/

Relato de Vila Estrela escrito pelo pintor Rugendas em 1824:

Desenho de Rugendas.


“ Na vizinhança do Rio, a primeira aldeia de alguma importância é do Porto da Estrela, à margem do Inhomirim que se joga na Baía do Rio. As mercadorias destinadas às províncias do interior de Minas Gerais, Minas Novas, Goiás, etc., são primeiramente conduzidas, da mesma forma que os viajantes, em pequenas embarcações, do Rio ao Porto da Estrela, afastado de sete léguas. Aí são elas enfiadas a tropas de mulas que, por seu lado, trazem, de volta, carga para os navios no Rio de Janeiro. Nesse sentido, existe curiosa analogia entre o comércio do Porto da Estrela com o Rio de Janeiro, e o de Aldeia Galega com Lisboa. Sabe-se que Aldeia Galega se encontra no fundo da baía de Lisboa e que todas as mercadorias e viajantes, vindo de além-Tejo e da Espanha, chegam também a dorso de mula para serem carregados em pequenos navios e levados para Lisboa através da baía, ou vise-versa. Essa analogia de situação entre a antiga capital da metrópole e a nova capital das colônias, essa semelhança que se verifica ainda em muitos pontos, deve ter impressionado fortemente os primeiros portugueses que aqui se estabeleceram.

A estrada que vai de Porto da Estrela e Minas passa diante de belas plantações, atrás das quais se percebem, ao longe, as pontas angulosas da Serra dos Órgãos, erguendo-se por cima da Serra das Estrela cujas escapas constituem o espantalho dos tropeiros e o tormento das mulas, embora uma estrada larga, constituída e pavimentada com grande sacrifício, aí tenha sido aberta. Em mais de um lugar ela se assemelha mesmo a uma imensa muralha de dez pés de largo.

Diante dessa situação não é de espantar que Porto da Estrela seja a um tempo muito animado e muito industrial. Os estrangeiros e principalmente os pintores devem visitá-lo; mesmo se não estiver em seu caminho. É u lugar de reunião para os homens de todas as províncias do interior; aí se encontra gente de todas as posições sociais e podem-se observar suas vestimentas originais e sua atividade barulhenta. Aí se organizam as caravanas que partem para o interior e somente aí o europeu depara com os verdadeiros costumes do Brasil; aí deve ele despedir-se, não raro por muito tempo, de todas as facilidades e comodidades da vida européia e de todos os seus preconceitos (...).”

Fonte: http://mirindiba-ipcca.blogspot.com.br/

Na Rota das CidadesInvisíveis. Villa Estrela. Magé.