Dissertação: Regras e hábitos de sociabilidade na corte e em Portugal. Universidade de Lisboa.

Aspeto do aposento real no palácio de Mafra ao gosto do século XIX

1-  Regras e hábitos de sociabilidade na corte e em Portugal. Universidade de Lisboa.

2-  No presente trabalho de dissertação, centramo-nos particularmente nos hábitos privados da corte portuguesa nos Séculos XVIII e XIX, nos reinados de D. Maria I

3-  Por ordem do príncipe regente, D. João um novo Paço da Ajuda foi iniciado, em 1796, no mesmo local do antigo.

4-   Na corte de D. Maria I, os banhos eram um hábito dos membros da Família Real. Encontram-se numerosas referências nos inventários de despesas, relativas ao arranjo e fabrico das tinas e borrifadores50em folha-de-flandres ou prata, de vários aposentos Reais: “1 tina consertada para o Quarto do Príncipe Nosso Senhor e borrifador para o banho da Senhora Infanta D. Mariana”; 51 ou a outras peças relacionadas com a higiene como um “lavatório grande para a Princesa Nossa Senhora.”52

5-  51 ANTT, AHMF, Casa Real, Cx. 3133, Despesas de Julho de 1784

6-   52IDEM, Cx. 3118, Despesas de Junho de 1781.      

7-   No início do século XIX, já não se confundia a casa de banho com o quarto de toilette, pois a higiene e o arranjo pessoal eram dois momentos distintos. O toucador podia ter espelhos e funções diferentes. Os rituais de toilette podiam demorar até cerca de três horas.

8-  Nos aposentos Reais do paço da Ajuda de oitocentos, as peças utilizadas para a higiene e toilette diárias, como os serviços de toucador e de barba eram conjuntos constituídos por objectos em materiais nobres como a prata ou prata dourada, cristal, porcelana ou vidro. Ainda hoje se encontram em exposição no toucador da rainha, duas peças que a soberana tinha a uso: um “Jarro e bacia de prata (...) Do joalheiro Leitão (...) com as iniciais MP encimadas pela coroa Real.”95 Nos quartos do pessoal de serviço, no recheio das peças relacionadas com a higiene, encontravam-se lavatórios em “madeira com pedra”, bidés “com guarnição de madeira”, banheiras com pés, toucadores e bacias de lavatório fabricadas nas fábricas de Sacavém e da Vista Alegre bem como baldes e regadores de lavatório e samovares.96

9- Tal como a banheira, o bidé foi uma importante criação do século das Luzes. Peça demonstradora da evolução dos hábitos de higiene era por vezes composta por uma bacia em porcelana cobre ou prata, encaixada numa armação em madeira, sobre quatro pés, com tampa articulada, que se fechava depois da sua utilização. Certas peças continham no assento, compartimentos para o acondicionamento das esponjas e frascos com os líquidos para a toilette.

10-   As peças do dia-a-dia referidas ao longo do texto foram o ponto de partida, para uma contextualização dos rituais diários nos Paços da Ajuda nos séculos XVIII e XIX. Numa abordagem interdisciplinar entre a História de Arte e a História dos Costumes descrevemos as vivências no quarto, centro vital da casa em setecentos, local da recepção, das refeições, da toilette, do banho, da hora de dormir, e da escrita e o aparecimento no século seguinte, do conforto “à inglesa”, com a separação das divisões e das preocupações pela privacidade, pela sanidade, da criação dos water - closets, das casas de banho e dos aquecimentos, no novo Paço.

11-   No século XVIII, logo após o levantar, tomava-se uma primeira refeição. O quarto era ainda um local de convivência, onde se desenrolavam diversas actividades diárias. Por essa razão, o quarto era guarnecido com todo o recheio necessário. Fabricavam-se serviços completos, que contemplavam conjuntos para a toilette, higiene e conforto, para as refeições, a escrita, iluminação, e oração. Estes conjuntos eram designados em Portugal, como a “pratta do quarto”.

12-   No que diz respeito aos artefactos utilitários da “prata do quarto” que serviam à higiene e à escrita e ao conforto das pessoas Reais, constavam nos aposentos do paço da Ajuda, peças como: “bacia de pés grande redonda” 35 “prato redondo gomado pela borda com armas reais”, (...) ”candeeiro de velas, com todos seus pertences, tesoura, e 8 canudos”, (...) “jarro grande de boca larga (...) com sua máscara na boca, asa de figura de sereia, e o pé gomado”, (...) “caneca (...) de feitio ouvado, com sua tampa, e asa de figura de sereia”, (...) “pratos, e jarros para água às mãos”, bacia, e ferro para sangria, “esquentadores com suas cobertas” ou seja escalfetas de leito, “perfumadores com suas tampas transfuradas”, (...) “bacias de tripeça, e de cama”, (...) roleira, castiçal de bandeira e castiçais para o Cravo, acrescente-se no caso dos quartos masculinos, os aparelho da barba, e ainda urinóis.

13-   36 Os perfumadores eram peças empregues para a purificação do ambiente. Os perfumes consideravam-se “bons contra a peste” 37e para “exhalar o cheiro, com que se perfuma a roupa, os vestidos, etc.”38 Os preferidos para o efeito eram “o incenso, pastilhas” e “pevides.”

14-   39 Os jarros com bacia (gomil com lavanda), muitas vezes designados como “jarros de água às mãos”, eram usados não só para a higiene das mãos na ocasião das refeições (a água vertida por vezes continha alfazema perfumada ou água-derosas),

15-   40 35ANTT, AHMF, Casa Real, Cx. 3137, Despesas de Março de 1785. mas também para a higiene diária. Eram peças de grande 36IDEM 3126 [1], Despesas de Maio de 1783.

16-    37 BLUTEAU, 1720, Tomo VI, p.422.

17-   38 IDEM.

18-   39 IDEM. 40D’OREY, Leonor, Ourivesaria, Fundação Ricardo Espírito Santo Silva, Museu Escola de Artes Decorativas Portuguesas, 1998, Lisboa, pp.143, 144.

19-   Até ao século XVIII, à semelhança das refeições, a higiene e a toilette eram rituais que se realizavam no quarto, ou seja, nos aposentos privados.

20-   Foi no reinado de Luís XVI (1754-1793), que a divisão apropriada para os rituais do banho, a casa – de – banho se divulgou em França, mas só nas casas abastadas. A banheira, colocada na zona central da sala ou encostada à parede, era considerada mais uma, entre as peças de mobiliário de luxo. As banheiras, fabricadas em materiais como a pedra, cobre, madeira ou folha-de-flandres, podiam ter formas diversas. Chegou a ser de bom-tom, em França, receber na hora do banho. Tal situação 33 ocorria na mansão da condessa de Genlis, que na hora da recepção, nos seus «bainssalon», tinha o cuidado de mandar diluir leite na água do banho, para que esta se tornasse opaca, ou então envergava uma camisa longa.49 Na corte de D. Maria I, os banhos eram um hábito dos membros da Família Real. Encontram-se numerosas referências nos inventários de despesas, relativas ao arranjo e fabrico das tinas e borrifadores50em folha-de-flandres ou prata, de vários aposentos Reais: “1 tina consertada para o Quarto do Príncipe Nosso Senhor e borrifador para o banho da Senhora Infanta D. Mariana”; 51 ou a outras peças relacionadas com a higiene como um “lavatório grande para a Princesa Nossa Senhora.”52 Alguns banhos, sobretudo os de carácter terapêutico, requeriam a preparação dos aposentos com armações. Logo após a Infanta D. Mariana ter tomado “os banhos 1 dia (...) 3 oficiais (...) foram desarmar os Quartos de tapeçarias e cortinados, e alcatifas e armar a armação da cama, e tudo o mais que foi preciso.” 53 A Família Real portuguesa também se deslocava ao centro de Lisboa, onde se alojava no paço da Praça do Comércio, para tomar os banhos terapêuticos das Alcaçarias, bem perto do mesmo. Esta “ (...) efémera residência régia foi, entre 1780 e 1792, frequentemente habitada por D. Maria I e ocupava o quarteirão delimitado pelas Rua Augusta, do Comércio e do Ouro e pela Praça do Comércio (...).”54 Nessas ocasiões eram preparados os aposentos nos “edifícios, que formam a Praça do Comércio” 55para que pudessem “os soberanos, mais comodamente tomar os banhos.” Há notícias de que em certas deslocações, eram fabricados propositadamente colchões para o repouso após o banho e barris para a condução das águas, no dito local. 49AA.VV. Les Heures do Jour, Dans l’Intimité d’une famille de la haute société, de Louis XIV à la République, pp 26, 27. 50Uma espécie de chuveiro. 51 ANTT, AHMF, Casa Real, Cx. 3133, Despesas de Julho de 1784. 52IDEM, Cx. 3118, Despesas de Junho de 1781. 53 IDEM, Cx. 3131, Despesas de Maio de 1784. 54SANTANA, Francisco, «Feira da Ladra», in Revista Olisipo, Lisboa, Boletim do Grupo Amigos de Lisboa, II série, nº 26, Janeiro/ Junho de 2007, p. 96. 55 ANTT, AHMF, Casa Real, Caixa 3132, Despesas de Maio de 1784

21-   Tal como a banheira, o bidé foi uma importante criação do século das Luzes. Peça demonstradora da evolução dos hábitos de higiene era por vezes composta por uma bacia em porcelana cobre ou prata, encaixada numa armação em madeira, sobre quatro pés, com tampa articulada, que se fechava depois da sua utilização. Certas peças continham no assento, compartimentos para o acondicionamento das esponjas e frascos com os líquidos para a toilette. 60 Na higiene masculina, a barba era feita pelo próprio, ou pelo barbeiro que se deslocava propositadamente à residência do cliente, com o material adequado: um estojo com bacia, jarro, uma bola para o sabão ou esponja e frascos com águas de toilette. Esses conjuntos, que faziam parte da “prata do quarto” na corte portuguesa setecentista, eram na altura designados como “aparelhos de barba”. Peças de uso diário, na corte portuguesa, pelo desgaste causado no manuseamento, requeriam constante limpeza e manutenção. Esses arranjos eram realizados pelos ourives. Nesse contexto, o ourives encomendava ao bainheiro da casa Real o fabrico de caixas novas. Apura-se através dos inventários de despesas referentes à prata da casa, nomeadamente a “prata do quarto”, a necessidade de substituição frequente de caixas ou estojos velhos. Como por exemplo, o pedido de uma “ caixa para o aparelho da barba do Senhor Infante D. João”. 61 António Rodrigues Leão, ourives da Casa Real, realizou igualmente uma “limpeza da prata do mesmo aparelho”, no ano de 1784. O estojo que foi fabricado pelo bainheiro da casa real portuguesa, Manoel José de Barros em 1784, para encerrar o “aparelho de barba” 62 do Infante D. João, era “huma cacha de madeira forrada de veludo”, 63 continha “humas pessas em prata doiradas, a saber, huma bacia de barba com sua coneca e huma caixa redonda grande, e duas cachas para sabonete e esponja, e huma moldura e chapa de costas de espelho, e duas salvas grandes, muito muito uzadas para se porem como novas.”64 Por vezes os conjuntos para a barba eram utilizados nas

22-   Nos quartos do Paço da Ajuda, nos séculos XVIII e XIX, eram usados pelos membros da Família Real, os serviços para a higiene dos pés, nomeadamente “bacias de água ao pés” em prata, ou bacias em metais menos nobres, como o zinco; e serviços mais completos constituídos por bacia, jarro e balde lava-pés. No interior da mesa-de-cabeceira, encontrava-se um bacio para as necessidades fisiológicas que ocorriam durante a noite. Utilizado nos lares desde o século XVI, era uma necessidade de conforto. A peça podia ter formas variadas, e era usada não só no quarto, mas também em situações de mobilidade da corte portuguesa, nas carruagens. Em França foram criadas peças específicas para uso em situações algo insólitas; era o caso das emergências que ocorriam às senhoras da corte de Luís XIV durante os longuíssimos sermões do Padre Bourdalou. Privadas de se deslocar, utilizavam um urinol específico, que por esse motivo, tomou a designação do nome do celebrante: bourdaloue. Era utilizada uma peça com forma muito semelhante por D. Carlota Joaquina, no seu quarto” para urinar feitio ouvado, gargalo estreito com pé, e asa”.80

23-   Nos aposentos Reais do paço da Ajuda de oitocentos, as peças utilizadas para a higiene e toilette diárias, como os serviços de toucador e de barba eram conjuntos constituídos por objectos em materiais nobres como a prata ou prata dourada, cristal, porcelana ou vidro. Ainda hoje se encontram em exposição no toucador da rainha, duas peças que a soberana tinha a uso: um “Jarro e bacia de prata (...) Do joalheiro Leitão (...) com as iniciais MP encimadas pela coroa Real.”95 Nos quartos do pessoal de serviço, no recheio das peças relacionadas com a higiene, encontravam-se lavatórios em “madeira com pedra”, bidés “com guarnição de madeira”, banheiras com pés, toucadores e bacias de lavatório fabricadas nas fábricas de Sacavém e da Vista Alegre bem como baldes e regadores de lavatório e samovares.96

   Fonte: http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/5729/2/ulfl106461_tm.pdf   acesso em 11/09/2016 Universidade de Lisboa, (sn) (sd).

Casa de banho no Palácio de Mafra