Cidades Invisíveis

Convento do Macacu na Villa Santo Antônio de Sá

 

Consideramos Cidades Invisíveis as ruínas de quatro cidades extintas do Estado do Rio de Janeiro. Percorremos os vestígios do que um dia foram igrejas, pontes, ruas, câmaras e residências. Por meio de fragmentos registramos a história dessas antigas vilas. Ativas entre os séculos XVIII e XX, Santo Antônio de Sá, São João Marcos, Vila de Iguassú e Vila de Estrela, importantes no processo de ocupação do solo fluminense, desapareceram em meio a crises econômicas, epidemias e o abandono dos portos depois do advento das estradas de ferro e o desrespeito à história e a memória.

 Ruínas da Vila de Santo Antônio de Sá 

Vila de Santo Antônio de Sá A cidade está soterrada em torno das ruínas do Convento de São Boaventura, conhecidas como ruínas do convento de Macacu, e da torre sineira da antiga Igreja Matriz de Santo Antônio de Sá. Envolvidas por um cenário natural de extrema beleza, as ruínas do convento se destacam majestosas onde existiu, no século XVIII, a antiga Vila de Santo Antônio de Sá. Em 1612, foi erguida a Capela de Santo Antônio de Sá, origem do povoado de mesmo nome. Em 1768, foi iniciada uma reforma na igreja, que lhe deu os contornos finais, finais, já com a torre sineira. A construção do convento e da igreja data do fim do século XVII. No século XVIII, em 1784, o convento e a igreja sofreram profundas    modificações, com a ampliação do convento para receber maior número de religiosos. Ainda nesse ano, iniciou-se a construção da igreja da Ordem Terceira, ao lado da Igreja de São Boaventura. Santo Antônio de Sá era um importante posto comercial, exportava a sua produção de madeira, farinha, açúcar e aguardente, utilizando o rio Macacu para alcançar a baía da Guanabara, e daí a cidade do Rio de Janeiro. Constituía também ponto de passagem da produção cafeeira, que descia de Nova Friburgo e Cantagalo, já no século XIX. O declínio de Santo Antônio de Sá começa em 1829. Tomada por uma forte epidemia, que dizimou a população até aproximadamente a década de 1850, a Vila perdeu em muito a sua importância com o abandono do convento pelos franciscanos. A origem das febres estaria ligada à obstrução dos rios e, consequentemente, à formação de brejos e pântanos. A Vila necessitava de obras urgentes para a manutenção do transporte fluvial, porém, com a inauguração do primeiro trecho da Estrada de Ferro Cantagalo, em 1860, ligando Porto das Caixas a Cachoeiras de Macacu, Santo Antônio de Sá perdeu a função de ponto de passagem de mercadorias. Em 1868, a sede administrativa de Santo Antônio de Sá foi transferida para Santana de Macacu. Em 1875, a Vila foi anexada ao município de Itaboraí. Em 1922 as ruínas do convento passaram aos beneditinos e, posteriormente, as terras foram vendidas a diversos proprietários. Atualmente, o que resta de Santo Antônio de Sá situa-se na área rural do município de Itaboraí, no delta do rio Macacu, próximo a Porto das Caixas. Nesta área a Petrobras está construindo o polo petroquímico do Comperj. Este estudo resultou no filme Cidades Invisíveis, de Beth Formaggini, realizado em 2009, com 32 minutos. A ideia do documentário surgiu por ocasião do início dos estudos de tombamento da Vila de Estrela, em Magé. Foi realizado nas ruínas de Santo Antônio de Sá, São João Marcos, Vila de Iguassú e Vila de Estrela. Produzido pelo Inepac, o filme percorre os vestígios da ocupação, ouvindo os antigos moradores (caso de São João Marcos) e seguindo o rastro dos cronistas que por ali passaram, as pegadas daqueles que por ali viveram, amaram, trabalharam e ajudaram a construir uma cultura rica como a nossa. Através destes fragmentos trazemos à vida essas cidades, fazendo ver a importância do tombamento dos bens fluminenses e a luta pela preservação de suas memórias.Elizabeth Versiani Formaggini Historiadora Departamento de Pesquisa e Documentaç

São João Marcos

As Cidades Grande distrito cafeeiro no período imperial, São João Marcos surgiu quando João Machado Pereira, vindo de Resende, ali instalou uma fazenda. Logo em seguida abriu-se uma estrada pela qual pudessem transitar com segurança, os quintos de ouro com destino ao Rio de Janeiro. O mesmo fazendeiro mandou edificar uma capela dedicada a São João Marcos, em torno da qual aglomerou-se pequena população, surgindo assim um povoado, elevado a categoria de Freguesia em 1755. Em função do grande desenvolvimento do café, São João Marcos foi um dos municípios mais importantes do Estado do Rio de Janeiro no século XIX, ao lado de Resende, Valença, Vassouras e Paraíba do Sul. Com a decadência da cultura cafeeira fluminense, a região foi perdendo a importância. Seu centro histórico foi tombado pela Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan), em 19 de maio de 1939, atual Iphan. São João Marcos já havia passado a distrito de Rio Claro, em 1938, e encontrava-se ameaçada pelo represamento das águas de Ribeirão das Lajes, solução encontrada pela Light para aumentar a geração de energia elétrica para o Rio de Janeiro. No ano seguinte, São João Marcos, considerada pelo Sphan Como raro exemplo intacto de conjunto de arquitetura colonial, deixou de ser monumento nacional pelo Decreto n 2269, de 3 de junho de 1940, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas.  Ruínas de São João Marcos. Desapropriada, São João Marcos teve um fim dramático. Recusando-se a abandonar suas casas, mas irremediavelmente expulsos, os habitantes viram sua cidade ser implodida e demolida como forma de impedir qualquer tentativa de reocupação. Ainda assim, o local só foi inundado uma vez, pois as águas da represa subiram apenas alguns metros. Em um vale, na confluência dos antigos rios Araras e Panelas, fica tudo o que restou do antigo núcleo: trechos de caminhos calçados com pedras, vestígios de prédios dinamitados, muros em cantaria, muitos dos quais encobertos pela vegetação. Durante algum tempo depois da implosão dos principais monumentos e edificações, seus habitantes voltavam à cidade destruída, reunindo-se onde antes havia praças e rezando missas no local da paróquia. Atualmente na área, a Light administra o Parque Arqueológico Ambiental de São João Marcos. Sergio Linhares Acervo Inepac.

Vila de Estrela

Durante o período colonial e até a metade do século XIX, Vila de Estrela contou com um dos mais ativos portos do território fluminense, o principal porto de escoamento da produção aurífera mineira no século XVIII e do café do Vale do Paraíba no século XIX, e de seus produtos agrícolas. Em 1846, Estrela foi elevada à categoria de vila, tornando-se sede do município de Estrela com as freguesias de Pilar, Guia de Pacobaíba, Inhomirim, Suruí e Petrópolis. Pedro Oswaldo Cruz Acervo Inepac Ruínas da Vila de Estrela Anualmente registravam-se embarque e desembarque de ouro vindo das Gerais, milhares de metros cúbicos de madeiras nobres, outros milhares de caixas de açúcar e pipas de aguardente e, após o período colonial, com o acentuado plantio do café no Vale do Paraíba, a produção representada por centenas de milhares de arrobas desse produto. Situado à margem direita do rio Inhomirim, quase na junção com o rio Saracuruna, o porto de Estrela possuía um extraordinário movimento. Estes dois rios formam o rio Estrela que deságua no litoral norte da baía de Guanabara. O porto e as casas de comércio, fortemente abastecidas, constituíam verdadeiro empório que dava atendimento às necessidades das populações litorânea, ribeirinha e interiorana. O povoado era o portão de entrada para o atalho do Caminho Novo do Ouro, aberto em 1724, a variante do Proença, que reduzia a viagem em alguns dias, proporcionando mais segurança no trajeto da Corte para as Gerais. Com o advento da ferrovia e a construção da Estação inicial Guia de Pacobaíba no Porto de Mauá, a vila viu o fim de seu tempo de prosperidade, embora tenha mantido um trânsito regular. Com a mudança do sistema de transporte, ampliada pela Estrada de Ferro D. Pedro II, na década de 1860, o porto tornou-se obsoleto, o que motivou sua gradual desativação. Após a abolição da escravatura, já em plena decadência, a sede da vila foi transferida para a povoação de Raiz da Serra, elevada a Vila de Inhomirim, em 1891. A antiga vila, já em plena agonia, não mais podendo resistir como célula política, sucumbiu em 8 de maio de 1892, passando a fazer parte do 6º distrito de Magé. A crise, que já vinha atingindo grande parte da Baixada Fluminense, levou ao progressivo abandono do Porto de Estrela. Hoje, restam da antiga Vila de Estrela, a escada do porto, as ruínas da casa das três portas e da igreja de Nossa Senhora de Estrela dos Mares - fundada em 1650 por Simão Botelho, e, ao fundo da igreja encontra-se o que resta do cemitério.

Toda essa atividade começa a declinar já em 1854, quando o Barão de Mauá constrói a primeira via férrea ligando a Estação Guia de Pacobaíba, partindo do porto de Mauá, à margem da baía da Guanabara, à Estação de Fragoso, na Freguesia de Inhomirim. A navegação do rio Iguaçu foi decaindo e o caminho d'água, descuidado, assoreou-se com o aumento de pântanos que se alastraram por imensas superfícies. Com eles veio a malária, associada à epidemia de cólera-morbo de 1855, que assolou sua zona rural. Em 1858, foi construído o primeiro trecho da Estrada de Ferro D. Pedro II, do Rio de Janeiro a Queimados, seguindo logo para Belém, em Japeri, em direção ao Vale do Paraíba. E o que restava do esplendor comercial da antiga vila sumiu definitivamente. Em pouco tempo a Vila de Iguassú transformou-se num povoado abandonado. Em 1891, a sede do município foi transferida para a estação de Maxambomba, que se transformou em Nova Iguaçu. No final do século XIX e início do XX, os surtos frequentes de doenças tropicais provocaram a extinção da Vila de Iguassú. A paisagem atual é marcada pelas ruínas da Matriz de Nossa Senhora da Piedade de Iguassú, da qual resta apenas a torre sineira, de 1764, do muro do cemitério de Nossa Senhora do Rosário, pelos alicerces de antigas construções e vestígios do porto.  Pedro Oswaldo Cruz Acervo Inepac 

 Ruínas da Vila de Iguassú

Vila de Iguassú Hoje conhecida como Iguaçu Velha, o povoado iniciado em 1699, com a construção da Capela de Nossa Senhora da Piedade de Iguassú, foi elevado à Vila de Iguassú e sede de município em 1833, à beira do velho caminho para a serra, numa região de vários engenhos de açúcar. Tendo crescido com o transporte de café do Vale do Paraíba, Iguassú se transformou num centro de comunicação se expandindo com o aumento do comércio na serra. A importante Estrada do Comércio, aberta para atender à exportação do café e a importação de produtos da Inglaterra, concluída em 1819 pela Real Junta do Comércio, pode ser considerada como um dos fatores de grande importância para a fundação do município. A vila era uma região de passagem e comércio da produção de ouro, café e vários produtos importados. vários produtos importados. Iguaçu Velha guarda vestígios da história da colonização do sertão fluminense. Dos vários portos construídos ao longo do rio Iguaçu destacavam-se os portos do Feijão, do Tejam e dos Saveiros. Durante o auge da produção cafeeira do Vale do Paraíba, Iguassú possuía grandes armazéns e estabelecimentos comerciais que faziam girar vultosos capitais.

Fonte: Património Cultural. Inepac.

http://docplayer.com.br/20478982-Patrimonio-cultural-capela-situada-no-sitio-santo-antonio-da-bica-sitio-roberto-burle-marx-parte-ii.html acesso em 25/08/2016

Cidades Invisíveis.Villas de Sto António de Sá, da Estrela, de Iguassu e São João marcos

Villa do Porto da Estrela

Documentário realizado sobre as ruínas de cidades extintas do Estado do Rio de Janeiro. Produzido pelo Inepac, o filme percorre vestígios das antigas vilas de Santo Antônio de Sá, São João Marcos, Iguassú e Estrela. Ativas entre os séculos XVIII e XX e importantes na ocupação do solo fluminense, desapareceram em meio a crises econômicas, epidemias e modificação das rotas comerciais. Através de fragmentos, contamos a história dessas cidades, enfocando a importância do tombamento dos bens fliminenses e a luta pela preservação de suas memórias.

INEPAC

Cidades Invisíveis. Inepac