O Capanga

Tschudi, Joahnn Jakob Von, 1818-1899. Viagem às províncias do Rio de janeiro e São Paulo

O capanga.

“Segundo as próprias fontes estatísticas brasileiras, há em todo o Brasil cerca de 200.000 indivíduos do sexo masculino que vivem nas fazendas, sem trabalho, e são os  instrumentos incondicionais de seus protetores. Tais indivíduos são os “capangas”, servem para qualquer desígnio de seus amos, não hesitam de qualquer crime e, nas épocas de eleições, funcionam como agentes e guarda-costas de seu candidato; prestam juramento falso e liquidam a quem se põe no seu caminho. [...]

Esses capangas, gente de cor em geral, constituem um flagelo da humanidade e sua existência só é possível onde a depravação moral atingiu, não apenas as classes baixas, porém as mais elevadas, as quais não só admitem o crime como também protegem o criminoso, confraternizando com ele. Procurou-se explicar a razão do tal estado de cousas argumentando com a mistura de raças, o que não é justo, pois no Sul do país, e na costa ocidental da América do Sul, onde também vivem povos latinos com mistura de negros e índios, existe maior respeito pelas leis e não existem capangas. Existem criminosos, salteadores, assassinos que trabalham por conta própria, mas nunca indivíduos tão vis, abomináveis covardes e sujos como o capanga. O republicano sul americano de origem espanhola ataca seu inimigo de frente a frente, mas o brasileiro rico, demasiado covarde para correr perigo ao satisfazer sua baixa vingança, recorre ao capanga, o qual, traiçoeiro, covarde e vil, ataca o inimigo pela costas, prostrando-o com uma carga de chumbo, ou atraindo-o a uma cilada, para o liquidar sem perigo. Uma bala poderia errar o alvo e o agredido viria a ser o agressor. Esta repugnante covardia não é o resultado da mistura de raças, mas um triste legado que a pátria mãe deixou aos brasileiros. [...]”

Tschudi, Joahnn Jakob Von, 1818-1899. Viagem às províncias do Rio de janeiro e São Paulo. Editora USP, 1980.

 

Johann Jakob von Tschudi (Glarus, 25 de julho de 1818 — Lichtenegg, 8 de outubro de 1889) foi um naturalista e explorador suíço.
Tschudi nasceu em Glarus, e estudou ciências naturais e medicina nas universidades de Neuchâtel, Leiden e Paris. Em 1838, viajou ao Peru, onde permaneceu durante cinco anos, explorando e coleccionando plantas nos Andes. Entre 1857 e 1859 visitou o Brasil e outros países da América do Sul. Em 1860, era o embaixador suíço designado no Brasil, permanecendo até 1868, altura em que de novo se dedicou a explorar o meio rural e a coleccionar para os museus de Neuchâtel, Glarus e Friburgo.
Entre suas andanças pelo Brasil, passou rapidamente por Cananéia, Paranaguá e Antonina, pois em maio de 1958 o navio Catarinense que o levaria para o extremo sul do país sofre danos mecânicos e assim utiliza este período para registrar aspectos da mata atlântica local e reproduzir algumas gravuras...
Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Johann_Jakob_von_Tschudi