O caminho da Fazenda da Luz

Desenho de Maria Graham tomado da Fazenda da Luz em Itaoca. São Gonçalo. RJ

Capela da Luz

Fazenda

Itaoca

São Gonçalo - Itaoca

O caminho para a fazenda

O livro de Maria Graham, “Diário de uma viagem ao Brasil e de uma estada nesse país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823”, publicado em Londres, em 1824, é uma das fontes mais importantes sobre a época da Independência brasileira (para este


artigo, utilizamos a tradução de Américo Jacobina Lacombe, publicada em 1956 na coleção Brasiliana, da Companhia Editora Nacional, cotejada com o original, “Journal of a voyage to Brazil, and residence there during part of the years 1821, 1822, 1823”, printed for Longman, Hurst, Rees, Orme, Brown, and Green, Paternoster-Row; and J. Murray, Albermale-Street, London, 1824”).

A autora, filha de um almirante inglês (na verdade, escocês), esteve no Brasil, pela primeira vez, acompanhando o marido, capitão Thomas Graham, comandante da fragata HMS Doris. Depois da morte do marido, no Chile, ela voltou ao Brasil, onde tornou-se amiga da Imperatriz Leopoldina e, brevemente, professora de sua filha mais velha, Maria da Glória – a futura rainha Maria II, de Portugal (a correspondência entre Maria Graham e a Imperatriz Leopoldina foi publicada em 1940, nos Anais da Biblioteca Nacional, Volume LX, que corresponde a 1938).

Maria Graham, ao voltar para seu país, casou-se com Augustus Callcott, excelente pintor – que depois se tornaria Sir Callcott, fazendo de Maria, Lady Callcott.

Ao falecer, em 1842, aos 57 anos, Maria deixou 14 livros publicados, a maior parte sobre suas impressões de viagem a várias partes do mundo, da Índia ao Chile, passando pelo Brasil e as Ilhas Sandwich, além de obras historiográficas e estudos sobre arte.

texto de Carlos Lopes. 2017.

Vestígios da Senzala

O Livro: diario-de-uma-viagem-ao-brasil-e-de-uma-estada-nesse-pais-durante-parte-dos-anos-de-1821-1822-e-1823/pagina/216

 [...] AO DOBRAR UM PROMONTÓRIO À MARGEM, CHEGAMOS A UMA IGREJINHA BRANCA, COM ALGUMAS ÁRVORES VENERÁVEIS EM TORNO(*); NOTA DO TRADUTOR ALÉM DELA FICAVA A CASA, COM UMA COMPRIDA VARANDA, SUSTENTADA POR COLUNAS BRANCAS, E, AINDA ADIANTE, O ENGENHO DE AÇÚCAR, A CERÂMICA E A OLARIA. DESEMBARCAMOS JUNTO À CASA; MAS COMO A PRAIA É RASA E LAMACENTA FOMOS CARREGADOS PARA A PRAIA PELOS NEGROS. NÃO HÁ NADA MAIS BELO QUE A PAISAGEM AQUI. DA VARANDA, ALÉM DO PRIMEIRO PLANO DOMÉSTICO E PITORESCO, VEMOS A BAÍA MANCHADA DE ILHAS ROCHOSAS. UMA DELAS, CHAMADA ITAOCA, É NOTÁVEL POR TER SIDO, NA OPINIÃO DOS ÍNDIOS, A RESIDÊNCIA DE UMA PESSOA DIVINA. ESTÁ LIGADA ÀS TRADIÇÕES RELATIVAS AO BENFEITOR ZOME (SUMÉ], QUE LHES ENSINOU O USO DA MANDIOCA E EM QUEM OS PRIMEIROS MISSIONÁRIOS AQUI IMAGINARAM VER O APÓSTOLO SÃO TOMÉ.(**) NOTA DO TRADUTOR CONSISTE EM UMA IMENSA PEDRA RACHADA DE ALTO A BAIXO E UM PEQUENO ESPAÇO DE TERRA E AREIA EM VOLTA, NO QUAL HÁ ÁRVORES E ARBUSTOS DA MAIS FRESCA VERDURA; ALGUMAS OUTRAS ILHOTAS SÃO LISAS E OUTRAS TÊM, DE NOVO, CASAS E LUGAREJOS. O CONJUNTO DA CENA É LIMITADO PELA SERRA DOS ÓRGÃOS, CUJOS CUMES ENROSCADOS E FANTÁSTICOS, ATRAINDO AS NUVENS QUE PASSAM, PROPORCIONAM UMA PERMANENTE MUDANÇA PARA OS OLHOS.
   VERIFICAMOS QUE DEVIDO À NOSSA NEGLIGÊNCIA EM MANDAR PREVIAMENTE UM AVISO DE NOSSA VISITA, NEM O PROPRIETÁRIO, NEM SUA HOUSE-KEEPER ESTAVAM EM CASA. CONTUDO, O SENHOR N., COMO VELHO AMIGO, DIRIGIU-SE AO GALINHEIRO E DEU ORDENS PARA UMA EXCELENTE REFEIÇÃO. ENQUANTO ELA SE PREPARAVA, FOMOS VER A CERÂMICA, QUE FAZ SOMENTE RUDE LOUÇA VERMELHA. A RODA USADA AQUI É A MAIS GROSSEIRA E PRIMITIVA QUE JÁ VI E O OLEIRO É OBRIGADO A SENTAR-SE AO LADO DELA. O BARRO TANTO PARA OS POTES COMO PARA OS TIJOLOS É EXTRAÍDO DO LOCAL. É RUDE E VERMELHO, E AMASSADO COM OS PÉS DOS BURROS, MAS EM TUDO QUE USAMOS FERRAMENTAS SÃO EMPREGADAS AQUI AS MÃOS NUAS DOS NEGROS. OS FORNOS PARA ASSAR OS TIJOLOS E POTES SÃO EM PARTE ESCAVADOS NO MORRO E FECHADOS NA FRONTARIA COM TIJOLOS. DEIXANDO A OLARIA, GALGAMOS O MORRO QUE ASSINALA A PRIMEIRA APROXIMAÇÃO DE NOSSA SENHORA DA LUZ; AO SUBIRMOS O ÍNGREME E RUDE FLANCO, NOSSOS CÃES PERSEGUIRAM UM REBANHO DE CARNEIROS, DE MODO TÃO PITORESCO E PRECIOSO COMO O PRÓPRIO PAUL POTTER(*) NOTA DO TRADUTOR O TERIA DESEJADO. ELES HAVIAM ESTADO JAZENDO EM VOLTA DA RAIZ DE UMA IMENSA ACÁCIA VELHA, DECORADA DE INÚMERAS PARASITAS, ALGUMAS DAS QUAIS PENDURADAS COMO HERA DO TRONCO E OUTRAS TREPANDO ATÉ OS ALTOS RAMOS E DALI CAINDO EM GUIRLANDAS SEDOSAS E CINZENTAS, OU COMO AS TILÂNDSIAS, ADORNANDO-A COM CENTENAS DE FLORES COR-DE-ROSA E BRANCAS. NO MEIO DISTO MUITAS FORMIGAS E ABELHAS HAVIAM FEITO NINHO E TUDO ESTAVA TRANSBORDANDO DE VIDA E BELEZA.

A LUA IA ALTA MUITO ANTES DE VOLTARMOS DE NOSSA EXCURSÃO E MUITO ANTES DA CHEGADA DE NOSSO HOSPEDEIRO. SE O EMBAIXADOR DE NÁPOLES QUE DISSE A JORGE III QUE A LUA DE SEU PAÍS VALIA O SOL DA INGLATERRA TIVESSE ESTADO NO BRASIL, EU QUASE PODERIA PERDOAR A HIPÉRBOLE. A LUZ CLARA E SUAVE AGINDO EM TAL CENÁRIO E A FRESCA E CONFORTADORA BRISA DA TARDE, DEPOIS DE UM DIA DE CALOR INTOLERÁVEL, TORNAM, DE FATO, A NOITE O MOMENTO DE PRAZER NESTE CLIMA. NEM ERAM DESAGRADÁVEIS OS RUDES CANTOS DOS NEGROS, A CARREGAREM OS BARCOS QUE DEVIAM ESTAR PRONTOS PARA ZARPAR PARA O PORTO COM A BRISA DE TERRA MATUTINA.

QUANDO ESTÁVAMOS OLHANDO A BAÍA, APARECEU UM BARCO MAIOR: APROXIMOU-SE DA COSTA E NOSSO HOSPEDEIRO, SENHOR LEWIS P., QUE ADMINISTRA A FAZENDA, DESEMBARCOU E RECEBEU BENEVOLAMENTE NOSSAS DESCULPAS POR VIRMOS SEM AVISO PRÉVIO. A VISITA FÔRA HÁ MUITO COMBINADA, MAS NOSSA ESTADA NO RIO ANUNCIAVA-SE AGORA TÃO CURTA QUE, SE NÃO TIVÉSSEMOS VINDO HOJE, TALVEZ NÃO PUDÉSSEMOS MAIS FAZÊ-LO. CONDUZIU-NOS ELE AO JARDIM, ONDE FICAMOS ATÉ QUE O JANTAR FICOU PRONTO. OS GUARDAS-MARINHA NUNCA HAVIAM ENCONTRADO TANTAS LARANJAS E FIZERAM-LHES AMPLA JUSTIÇA. AS FRUTAS E VERDURAS DA EUROPA E AMÉRICA, DAS ZONAS TEMPERADA E TÓRRIDA, ENCONTRAM-SE AQUI. NEM ESTÃO ESQUECIDAS SUAS FLORES; POR CIMA DE PEQUENO CANTEIRO, UMA LARANJEIRA E UM TAMARINDEIRO ENSOMBRAVAM UM AGRADÁVEL BANCO; JUNTO A ELE, UM TANTO À MANEIRA ORIENTAL, ERGUE-SE O MURO DO POÇO REBOCADO DE BRANCO E COROADO COM POTES DE FLORES, CHEIOS DE ROSAS E ERVAS.

 [SÁBADO], 2 [DE MARÇO] - ACORDEI DE MADRUGADA E ANDEI A CAVALO COM MR. N. PELA FAZENDA, ENQUANTO MR. DANCE, MEU PRIMO GLENNIE E DOIS RAPAZES IAM CAÇAR NO PÂNTANO À BEIRO DO RIO.
 CADA VOLTA EM NOSSO PASSEIO REVELAVA UM NOVO E VARIADO PANORAMA À NOSSA VISTA: AO PÉ, O CANAVIAL LUXURIANTE, ADIANTE AS LARANJAS AMADURECENDO E AS PALMEIRAS; EM TORNO E ESPALHADOS PELA PLANÍCIE AREJADA PELOS VENTOS DE GUAZINDIBA [GUAXINDIBA], OS LIMOEIROS, AS GOIABEIRAS E UM MILHEIRO DE ESPLÊNDIDOS E ODOROSOS ARBUSTOS ALINDAVAM O CAMINHO. MAS TUDO É NOVO AQUI. AS LINHAS EXTENSAS DAS CASAS DE FAZENDA, QUE AQUI E ALI RESSALTAM DA SOLIDÃO DA NATUREZA, NÃO SUGEREM NENHUMA ASSOCIAÇÃO COM QUALQUER IDEIA DE MELHORIA, TANTO NO PASSADO COMO NO PRESENTE, NAS ARTES QUE CIVILIZAM OU QUE ENOBRECEM O HOMEM. AS MAIS RUDES MANUFATURAS, MANTIDAS POR ESCRAVOS AFRICANOS, METADE DOS QUAIS IMPORTADOS RECENTEMENTE (ISTO É, AINDA SOFRENDO COM A AUSÊNCIA DE TUDO QUE DÁ VALOR À CASA, MESMO DE UM SELVAGEM), SÃO OS ÚNICOS SINAIS DE APROXIMAÇÃO DO PROGRESSO. E, AINDA QUE A NATUREZA SEJA AO MENOS TÃO BELA COMO NA ÍNDIA OU NA ITÁLIA, A FALTA DE QUALQUER RELAÇÃO COM O HOMEM, COMO SER INTELECTUAL E MORAL, RETIRA-LHE METADE DO ENCANTO. VOLTEI CONTUDO BEM SATISFEITA DE MEU PASSEIO, E ENCONTREI MEUS JOVENS ESPORTISTAS NÃO MENOS SATISFEITOS COM A EXCURSÃO DA MANHÃ; NÃO QUE TIVESSEM MATADO NARCEJAS, COMO PRETENDIAM, MAS TINHAM CAÇADO UM ENORME LAGARTO (LACERTA MARMORATA), DE UMA ESPÉCIE QUE NÃO HAVIAM VISTO ATÉ ENTÃO. TINHAM ENCONTRADO O GRANDE CARANGUEJO DE TERRA (RURICOLA) E HAVIAM TRAZIDO UMA AVE DE CONTRAMESTRE, ESPÉCIE DE PELICANO (PELICANUS LEUCOCEPHALUS), QUE PRETENDIAM EMPALHAR. EM CONSEQUÊNCIA, DEPOIS DO ALMOÇO, COMO O TEMPO ESTAVA MUITO QUENTE PARA PROSSEGUIR, O PÁSSARO E O LARGATO FORAM AMBOS ESFOLADOS E AS ESPINGARDAS LIMPAS. EU FIZ UM ESBOÇO DA PAISAGEM.


   Á TARDE FIZ UM LONGO PASSEIO A UM PONTO DE ONDE SE AVISTA DISTINTAMENTE TODA A BAÍA COM A CIDADE AO LONGE. NO CAMINHO PARAMOS NUMA CASA DE CAMPO ONDE O SENHOR P., QUE É AQUI LITERALMENTE "REI, SACERDOTE E PROFETA", TINHA UMA INVESTIGAÇÃO A FAZER EM RELAÇÃO À SAÚDE DOS MORADORES. ERAM ELES DOIS NEGROS ENVELHECIDOS A SERVIÇO DA FAZENDA E HOJE INÚTEIS. VI EXEMPLOS DE ALGUNS NESSE CASO SEREM LIBERTADOS, ISTO É, JOGADOS PORTAS A FORA PARA MORRER DE FOME. ESTES AQUI TERIAM DIREITO, PELAS REGRAS DA FAZENDA, SE NÃO PELA LEI, A RECEBER DIARIAMENTE A RAÇÃO DOS NEGROS QUE TRABALHAM, MAS ELES NÃO O QUISERAM. DE FATO VIVEM NUMA CABANA EM TERRAS DO SENHOR, MAS SUSTENTAM-SE COM A CRIAÇÃO DE ALGUMAS AVES E COM A FABRICAÇÃO DE CESTAS: TÃO CARO É O SENTIMENTO DE INDEPENDÊNCIA, MESMO NA IDADE MADURA, NA DOENÇA E NA ESCRAVIDÃO.

   DOMINGO, 3 [DE MARÇO] — SAÍ ANTES DO ALMOÇO EM COMPANHIA DE UM CARPINTEIRO NEGRO COMO GUIA. ESTE HOMEM, DE ALGUMA INSTRUÇÃO, APRENDEU SEU OFÍCIO DE MODO A SER NÃO SÓ UM BOM CARPINTEIRO, MAS TAMBÉM UM RAZOÁVEL MARCENEIRO. EM OUTROS ASSUNTOS REVELA UMA RAPIDEZ DE PERCEPÇÃO QUE NÃO DÁ FUNDAMENTO À PRETENDIDA INFERIORIDADE DA INTELIGÊNCIA NEGRA. FIQUEI MUITO GRATA ÀS OBSERVAÇÕES QUE ELE FEZ SOBRE MUITAS COISAS QUE ACHEI NOVIDADES, E À PERFEITA COMPREENSÃO QUE PARECIA TER DE TODOS OS TRABALHOS DE CAMPO. DEPOIS DO ALMOÇO, ASSISTI À REVISTA SEMANAL DE TODOS OS NEGROS DA FAZENDA. DISTRIBUÍRAM-SE CAMISAS E CALÇAS LIMPAS AOS HOMENS; BLUSAS E SAIAS ÀS MULHERES, DE ALGODÃO BRANCO MUITO GROSSO. CADA UM, À MEDIDA QUE ENTRAVA, BEIJAVA A MÃO DO SENHOR P. E CURVAVA-SE DIANTE DELE DIZENDO: "A BÊNÇÃO, MEU PAI" OU "LOUVADOS SEJAM OS NOMES DE JESUS E MARIA" E RECEBIA EM RESPOSTA, RESPECTIVAMENTE: "DEUS TE ABENÇOE" OU "LOUVADOS SEJAM". ESTE É O COSTUME NAS VELHAS FAZENDAS: É REPETIDO DE MANHÃ E À NOITE E PARECE ESTABELECER UMA ESPÉCIE DE PARENTESCO ENTRE O SENHOR E O ESCRAVO. DEVE DIMINUIR OS MALES DA ESCRAVIDÃO QUANTO A UM, A TIRANIA DO PATRÃO QUANTO A OUTRO, RECONHECER ASSIM, ACIMA DE TODOS, O SENHOR, DO QUAL AMBOS DEPENDEM. À MEDIDA QUE CADA ESCRAVO ERA PASSADO EM REVISTA, FAZIAM-SE ALGUMAS PERGUNTAS RELATIVAS A ELE PRÓPRIO, SUA FAMÍLIA, SE ELE A TINHA, E SEU TRABALHO. CADA UM RECEBIA UMA QUANTIDADE DE RAPÉ OU TABACO, SEGUNDO A PREFERÊNCIA. O SENHOR P. É UMA DAS POUCAS PESSOAS QUE ENCONTREI A CONVERSAR NO MEIO DOS ESCRAVOS, E QUE PARECE TER FEITO DELES OBJETO DE ATENÇÃO RACIONAL E HUMANA. CONTOU-ME QUE OS NEGROS CRIOULOS E MULATOS SÃO MUITO SUPERIORES EM DILIGÊNCIA AOS PORTUGUESES E BRASILEIROS, OS QUAIS, POR CAUSAS NÃO DIFÍCEIS DE SEREM IMAGINADAS, SÃO, PELA MAIOR PARTE, INDOLENTES E IGNORANTES. OS NEGROS E MULATOS TÊM FORTES MOTIVOS PARA ESFORÇAR-SE EM TODOS OS SENTIDOS E SEREM, POR CONSEQUÊNCIA, BEM SUCEDIDOS NAQUILO QUE EMPREENDEM. SÃO OS MELHORES ARTÍFICES E ARTISTAS. A ORQUESTRA DA ÓPERA É COMPOSTA, NO MÍNIMO, DE UM TERÇO DE MULATOS. TODA PINTURA DECORATIVA, OBRAS DE TALHA E EMBUTIDOS SÃO FEITOS POR ELES; ENFIM, EXCELEM EM TODAS AS ARTES DE ENGENHO MECÂNICO.


   À TARDE ACOMPANHEI O SENHOR P. PARA VER OS NEGROS RECEBEREM A RAÇÃO DIÁRIA DE COMIDA. CONSISTIA EM FARINHA, FEIJÃO E CARNE-SECA, UMA QUANTIDADE FIXA DE CADA COISA POR PESSOA. UM HOMEM PEDIU DUAS RAÇÕES EM VISTA DA AUSÊNCIA DO VIZINHO, CUJA MULHER PEDIRA QUE LHE FOSSE ENVIADA SUA QUOTA PARA ESTAR PREPARADA QUANDO ELE VOLTASSE.

   ALGUMAS PERGUNTAS FEITAS PELO SENHOR P. ACERCA DESSA PESSOA INDUZIRAM-ME A PERGUNTAR SUA HISTÓRIA. PARECE QUE É ELE UM MULATO REMADOR, O ESCRAVO DE MAIS CONFIANÇA DA FAZENDA, E RICO, PORQUE FOI TÃO INDUSTRIOSO QUE CONSEGUIU UMA BOA PORÇÃO DE PROPRIEDADE PRIVADA, ALÉM DE CUMPRIR SEUS DEVERES PARA COM O SENHOR. NA SUA MOCIDADE, E AINDA NÃO É VELHO, HAVIA-SE LIGADO A UMA NEGRA CRIOULA, NASCIDA, COMO ELE, NA FAZENDA; MAS NÃO SE CASOU COM ELA SENÃO QUANDO OBTEVE BASTANTE DINHEIRO PARA COMPRÁ-LA, DE MODO QUE SEUS FILHOS, SE OS TIVESSE, NASCESSEM LIVRES. DESDE ESSE TEMPO ENRIQUECEU BASTANTE PARA COMPRAR A SUA PRÓPRIA LIBERDADE, MESMO PELO ALTO PREÇO QUE UM ESCRAVO COMO ELE DEVE ALCANÇAR, MAS O SEU SENHOR NÃO LHE QUER VENDER A ALFORRIA, POR SEREM OS SEUS SERVIÇOS VALIOSOS DEMAIS PARA DISPENSÁ-LOS, APESAR DE SUA PROMESSA DE FICAR TRABALHANDO NA FAZENDA. INFELIZMENTE, ESTA GENTE NÃO TEM FILHOS. PORTANTO, PELA MORTE DELES, A PROPRIEDADE, AGORA CONSIDERÁVEL, REVERTERÁ AO SENHOR. SE TIVESSEM FILHOS, COMO A MULHER É LIVRE, ELES PODERIAM HERDAR A PROPRIEDADE MATERNA E NÃO HÁ NADA QUE POSSA IMPEDIR AO PAI TRANSFERIR À ESPOSA TUDO O QUE POSSUI. GOSTARIA DE TER O TALENTO DE ESCREVER UMA NOVELA A RESPEITO DESSA HISTÓRIA DE ESCRAVOS; MAS OS MEUS ESCRITOS, COMO OS MEU DESENHOS, NÃO CONSEGUEM IR ALÉM DA DESCRIÇÃO DA NATUREZA E PERMITO QUE MELHORES ARTISTAS POSSAM APROVEITAR O ASSUNTO.

   A NOITE FOI MUITO TEMPESTUOSA. NUVENS PESADAS HAVIAM COBERTO A SERRA DOS ÓRGÃOS; FORTES RELÂMPAGOS, CHUVA VIOLENTA E VENTO RUIDOSO AMEAÇARAM A FAZENDA COM UMA NOITE DE TERROR. MAS TUDO PASSOU, COMO VISÃO DA GRANDE E BRILHANTE BELEZA DE UMA TEMPESTADE ELÉTRICA NUMA TERRA MONTANHOSA; QUANDO A LUA ROMPEU ATRAVÉS DAS NUVENS, A NOITE PARECIA, EM CONTRASTE COM AS ÚLTIMAS POUCAS HORAS, AINDA MAIS ENCANTADORA DO QUE ANTES. [...]

Fonte: http://www.brasiliana.com.br/obras/diario-de-uma-viagem-ao-brasil-e-de-uma-estada-nesse-pais-durante-parte-dos-anos-de-1821-1822-e-1823/pagina/221/texto

Vídeo completo da visita com o guia Lenilson Campos.